Onça-pintada: Um estudo para medir quanto vale o turismo de observação no Pantanal

A Associação TOVS, com apoio do WWF-Brasil, inicia uma pesquisa sobre o valor econômico da onça-pintada na Transpantaneira e no Parque Estadual Encontro das Águas,  e quer ouvir você.

Quem já esteve em Porto Jofre, no Parque Estadual Encontro das Águas  sabe: poucas experiências no mundo se comparam a ver uma onça-pintada caminhando na beira do rio Cuiabá. O que pouca gente sabe é o tamanho da economia que gira em torno desse momento,  e o quanto ela pode fazer pela conservação da espécie e pelas pessoas que vivem no Pantanal.

É exatamente isso que o projeto “Transformando Onças-pintadas em um ativo para o Pantanal” quer responder. Essa é uma iniciativa do WWF-Brasil desenvolvida pela Associação Nacional de Turismo de Observação de Vida Silvestre no âmbito de Contrato de Parceria Técnica (CTP), e vai até abril de 2027.

A região: o coração do turismo de onças no Brasil

O estudo tem foco em dois territórios de Mato Grosso que se tornaram referência mundial: a Estrada Parque Transpantaneira, que liga Poconé a Porto Jofre, e o Parque Estadual Encontro das Águas, com cerca de 108 mil hectares de rios, baías e matas ciliares onde a onça-pintada encontra condições ideais para viver.

A onça é o maior felino das Américas e um predador de topo. Ao regular as populações de presas, ela ajuda a manter o equilíbrio de todo o ecossistema pantaneiro,  é uma espécie-chave e também uma espécie “guarda-chuva”: protegê-la significa proteger tudo o que está ao redor dela.

Por muito tempo, porém, a onça foi vista principalmente como um problema para a pecuária. Nas últimas duas décadas, essa história começou a mudar: pousadas, guias, barqueiros e operadoras passaram a viver da observação do animal, e a onça viva passou a valer muito mais do que a onça abatida.

Quanto vale uma onça viva?

A principal referência sobre o tema é um estudo de Tortato e colaboradores, publicado em 2017, com dados coletados em Porto Jofre em 2015. Os números chamam atenção:

Cerca de US$ 6,8 milhões por ano de receita bruta gerada pelo turismo de observação de onças, frente a perdas estimadas de US$ 121 mil por ano com predação de gado. Ou seja: para cada dólar perdido com ataques ao rebanho, o turismo gerava cerca de 56 dólares.

O mesmo estudo mostrou que 96% dos turistas concordavam com um sistema de compensação aos pecuaristas e que 80% estavam dispostos a contribuir com uma taxa de conservação, em média, cerca de 7% do valor da diária.

Esses números têm quase dez anos. De lá para cá, o fluxo de visitantes cresceu, surgiram novos empreendimentos, os preços mudaram e o perfil do turista também. Atualizar e aprofundar essa conta é o ponto de partida do nosso trabalho.

O que o projeto vai fazer

O estudo está organizado em quatro grandes frentes:

  • Valoração econômica: medir quanto o turismo de observação da onça-pintada (e da fauna associada) movimenta hoje na região,  gastos dos visitantes, receita de pousadas e operadoras, renda de guias e empregos gerados.
  • Comparação entre usos da terra: comparar o retorno econômico do turismo com outras atividades do território, como a pecuária, e entender como elas podem conviver.
  • Taxas de conservação: avaliar se os visitantes estão dispostos a pagar uma contribuição pela conservação, quanto, e como esse recurso poderia ser cobrado, gerido e revertido para a onça, o habitat e as comunidades.
  • Marco legal e governança: analisar as leis, as instituições e os arranjos de gestão existentes e propor caminhos viáveis para órgãos públicos, setor privado e sociedade civil.

A metodologia combina pesquisa documental, questionários on-line, entrevistas com os atores da região e trabalho de campo. Os métodos seguem referências reconhecidas, como a metodologia de c ontribuições econômicas do turismo usada pelo ICMBio em unidades de conservação federais e o método de valoração contingente (disposição a pagar) aplicado no próprio estudo de Porto Jofre.

 

 

Os resultados esperados

Ao longo dos próximos meses, o projeto vai entregar uma série de produtos técnicos, que culminam em um relatório final com um pacote de apoio à tomada de decisão:

Na prática, queremos entregar à região números atualizados e confiáveis, que ajudem a defender a onça-pintada com argumentos econômicos; propostas concretas de mecanismos financeiros para a conservação; e recomendações que fortaleçam quem vive do turismo e da terra no Pantanal.

O papel da Associação TOVS

A Associação TOVS é a responsável pela execução técnica do projeto. Fundada para representar o segmento de Turismo de Observação de Vida Silvestre no Brasil e no exterior, a associação trabalha para fortalecer práticas de conservação, padronizar boas práticas, ampliar a participação do setor nas decisões sobre turismo e promover esse segmento nos mercados nacional e internacional.

Para este estudo, a TOVS reuniu uma equipe com experiência em planejamento turístico, turismo de natureza, observação de vida silvestre e gestão de destinos. A coordenação técnica é de Edson Moroni, Cecília Licarião e Raul Pommer, e o acompanhamento da presidente da associação, Roséli Nascimento e vice presidente Suzi Camargo.

Para a TOVS, este projeto é também uma oportunidade de mostrar, com dados, o que o setor de observação de vida silvestre já sabe na prática: conservar a natureza gera renda, e a renda bem distribuída gera mais conservação.

Participe: sua resposta faz parte do estudo

Nenhuma conta sobre o valor da onça-pintada fica completa sem a voz de quem vive essa realidade. Por isso, convidamos turistas, guias, condutores, piloteiros, pousadas, agências, operadoras, ONGs, pesquisadores, gestores públicos, proprietários rurais, pecuaristas e moradores da região a responder o nosso questionário. Leva poucos minutos e as respostas são tratadas de forma confidencial.

  • Turistas, guias, operadoras, hospedagens, organizações, pesquisadores e poder público
  • Proprietários rurais e pecuaristas
  • Comunidades locais

http://www.turismodeoncanopantanal.com.br 

A equipe vai a campo de 18 a 23 de outubro, passando por Cuiabá, Poconé, Transpantaneira e Porto Jofre. Se você atua na região e quer conversar com a gente pessoalmente, ou prefere uma conversa on-line antes disso, entre em contato pelo Instagram @associacaotovs ou pelo e-mail forumtovs@gmail.com.

Conhece alguém que não pode ficar de fora deste estudo? Compartilhe este texto e os formulários com colegas, clientes e fornecedores. Quanto mais vozes, mais fiel será o retrato do Pantanal.

Foto Capa – Catarina Tokatjian

Referências

TORTATO, F. R.; IZZO, T. J.; HOOGESTEIJN, R.; PERES, C. A. The numbers of the beast: valuation of jaguar (Panthera onca) tourism and cattle depredation in the Brazilian Pantanal. Global Ecology and Conservation, v. 11, p. 106-114, 2017.

SOUZA, T. V. S. B.; SIMÕES, H. B. Contribuições do turismo em unidades de conservação federais para a economia brasileira: efeitos dos gastos dos visitantes em 2018. Brasília: ICMBio, 2019.